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A arte de ver

A arte de ver

Giselle Pachêco·26 de abril de 2026 às 17:43·4 min de leitura
ArteReflexão

Sofia entra, deita-se no divã e diz: "Acho que estou ficando louca". Em silencio, Marcos (o psicólogo) aguardava a paciente revelar os sinais de sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha,...

Autora: Mariana Mendonça

Sofia entra, deita-se no divã e diz: "Acho que estou ficando louca". Em silencio, Marcos (o psicólogo) aguardava a paciente revelar os sinais de sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

Ela se calou, esperando o diagnóstico. Marcos se levanta, vai à estante e de lá retira um livro do poeta chileno, Pablo Neruda e diz à Sofia: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física. Ainda no divã, Marcos fala para Sofia: a árvore que um sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê. Vejamos o exemplo de uma mulher, que ao limpar seu quintal decreta a morte de um ipê, que florescia belamente à frente de sua casa, simplesmente pelo fato da linda árvore sujar o chão e dar muito trabalho para sua vassoura. Os olhos dessa mulher não viam a beleza do ipê. Só viam o lixo.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. Não basta não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios. Para a maioria das pessoas, o ato de ver parece algo natural, mas quem realmente consegue ver tudo que um grande quadro tem? Ver é um ato muito mais complexo, um exercício muito mais refinado, do que nossas noções de natureza humana dão a entender.

Você deve estar se perguntando: então, como faço para ter um olhar mais refinado, mais sensível? A resposta encontra-se na diferença do lugar onde seus olhos são guardados. Se seus olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas utensílios que você usa por sua função prática. Com esses olhos você vê objetos, sinais luminosos, nomes de ruas e ajusta sua ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Mas, quando seus olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar.

Ao final da terapia, Sofia não mais achava que estava ficando louca. Percebera que na realidade estava desenvolvendo um olhar mais sensível perante o mundo e que esse olhar poderia lhe ajudar de diversas formas, como por exemplo, a descobrir a beleza numa simples pedra ou no simples ato de assistir um filme. Ao mudarmos o olhar sob nós mesmos, estaremos mudando também nosso olhar perante o mundo.

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